O Fonoaudiólogo e o Professor de Canto em Busca de um Padrão de Canto Adequado e Saúde Vocal do Cantor.

10-04-2011 11:24

Quando se pensa em canto vem a mente o ideal de afinação, adequação, prazer, beleza, entre tantas outras qualidades. Baseando-se na letra de serra do Luar verificamos que a idéia de viver também caminha pela trilhar do afinar. Afinar um instrumento de dentro pra fora e o seu inverso. Afinar, desejo constante de quem canta e de quem escuta.

Entram em cena dois importantes atores que propiciam o afinar desse instrumento que é a laringe humana. São eles: o fonoaudiólogo, o professor de canto. Ambos com sua importância e méritos quando se alcança o objetivo final que é o canto afinado e belo. Os trabalhos desses profissionais têm que ser integrados e entendidos para que não haja confusões entre os seus reais papéis. Procura-se nessa discussão levantar a bandeira do estabelecimento de cada função profissional em prol do bem estar do cantor, nosso cliente final

O Fonoaudiólogo tem a função de orientar o cantor no uso da sua voz para que não ocorra exageros e esforços desnecessários tendo como conseqüência sérios prejuízos no seu trato vocal. Já o professor de canto irá atuar nas mudanças da estética vocal com segurança, pois a meta de ambos é trabalhar a voz cantada sem danos ou prejuízos orgânicos e/ou funcionais.

Em Albuquerque, 1997 temos os seguintes depoimentos:

“Acho uma falha muito grande não ter uma fonoaudióloga dentro de um conservatório. Sinto uma grande dificuldade em perceber quando o aluno de canto chega com um problema de voz. Sou professora de canto lírico. Os professores de canto possuem uma sensibilidade acústica muito boa, mas só o nosso ouvido não basta. Escuto o problema, mas não tenho um conhecimento fisiológico da voz no canto. Não tenho condições de dizer o que pode estar acontecendo lá “por dentro”. A voz é como se fosse uma máquina. O fabricante conhece a máquina, o técnico atua na máquina. Preciso saber como funciona esta máquina e o que é preciso para que ela funcione sem estragos”. (Angelina Colombo Ragazzi - professora de canto lírico há 10 anos no Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos de Tatuí, 1996).

“O cantor é um pintor. Sua voz é o pincel, a capacidade de modulação suas tintas, e o espaço sua tela. Sua voz é um instrumento de que ele se utiliza: a arma com a qual combate. Nenhum músico toca um instrumento quebrado, assim como ninguém participa de um duelo com espada enferrujada ou defeituosa”. (SINNEK, 1955).


Materializam-se aqui as preocupações que permeiam os mundos dos fonoaudiólogos que atuam com voz estética e o dos professores de canto. Ambos preocupam-se com a boa saúde do seu cliente, da boa qualidade vocal. Ousamos afirmar ainda que a união dos esforços de trabalho do fonoaudiólogo com o do professor de canto é como se fosse um casamento que dá certo. É uma união de respeito e de cumplicidade e que objetiva o melhor desempenho de seu objeto final: a saúde e a beleza da voz do cantor.

O cantor ao buscar o professor de canto espera ter na sua voz a capacidade técnica de domínio vocal e que este propicie uma boa expressão de sentimentos e idéias. Para se chegar a este fim é necessário que o cantor desenvolva modulações, sonoridades e suavidade, mas isso tudo deverá ser adquirido sem esforços musculares que prejudicariam sue trato vocal e sem cansaços. Para tanto é necessário que o aspirante a cantor esteja preparado física e organicamente para essa maratona da aprendizagem das técnicas. A principal musculatura que deverá estar preparada e condicionada é a laríngea. Reforçando essas afirmações encontramos ainda em Albuquerque, 1997 duas importantes citações:

“Segundo SINNEK (1955) o que importa não é a quantidade de voz que o cantor possui, mas o modo artístico de empregá-la: a TÉCNICA.”

“PINHO (1997) afirma que o canto sem preparo e técnica pode ser extremamente prejudicial ao aparato vocal, causando sérios distúrbios orgânicos secundários.”


Em hipótese alguma se deseja afirmar aqui que todas as pessoas necessitem do binômio fonoaudiólogo/professor de canto. A partir do momento que se tem a certeza que não há comprometimento patológico na laringe, o professor de canto é o profissional que vai cuidar do desenvolvimento do cantor. O que é esperado aqui é deixar claro que havendo patologia laríngea é necessária a atuação dos profissionais em conjunto. O trabalho do fonoaudiólogo é preparar o trato vocal e sua musculatura para a prática do bom cantar.Unindo-se a arte com a ciência fonoaudiológica, unimos o trabalho árduo do Fonoaudiólogo de do Professor de Canto num só rumo, que é promover a saúde vocal dos cantores.

Isso posto, espera-se que Fonoaudiólogos executem o seu papel específico e não atuem como professores de canto e vice-versa. A união dos dois trabalhos que é o segredo do sucesso da promoção da saúde vocal do cantor. Trabalhando-se com prevenção dos distúrbios do trato vocal e avaliações fonoaudiológicas antes do trabalho intenso de técnica vocal do professor de canto tem como conseqüência o desenvolvimento da saúde vocal do cantor em todos os níveis. Ambos profissionais trabalham para alcançar o belo,mas não a qualquer preço. Esse belo pode e deve ser alcançado com saúde e conhecimento corporal e o cantor só poderá obter o amplo conhecimento disso se tiver assessorado por um Fonoaudiólogo e um professor de canto consciente de seus papéis.

Prof Reynaldo Gomes Lopes,MS.
Fonoaudiólogo – CRFa 6914-RJ
Mestre em Educação – UERJ
e-mail: reynaldo-lopes@uol.com.br

Bibliografia:
ALBUQUERQUE, L. M. F. de. Canto: Arte e Ciência. Uma melhor interação entre Professores de Canto e Fonoaudiólogos. São Paulo, CEFAC, 1997.
ESTIENNE, F. Voz Falada e Voz Cantada: Avaliação e Terapia.Rio de Janeiro: Revinter, 2004.
PINHO. S. & PONTES. P. Músculos Intrínsecos da Laringe e Dinâmica Vocal.Rio de Janeiro; Revinter, 2008.

 

Retirado do site: http://sites.google.com/site/saudevocal/Home/artigo-fonoaudiologo-professor-de-canto